Dr. Marcos Maranhão, médico de família (CRM-SP 132.965-SP).
Ácido Úrico Alto: Sintomas, Gota e Tratamento
1. O Que é o Ácido Úrico?
O ácido úrico é uma substância química produzida naturalmente pelo nosso organismo como produto final da degradação das purinas — compostos nitrogenados encontrados no DNA e RNA das células, tanto do nosso próprio corpo quanto dos alimentos que consumimos.
Em condições normais, o ácido úrico é filtrado pelos rins e excretado na urina, mantendo-se em níveis equilibrados no sangue. No entanto, quando esse equilíbrio se rompe — seja por produção excessiva, eliminação insuficiente ou uma combinação de ambos — os níveis séricos de ácido úrico se elevam, caracterizando a hiperuricemia.
Para se ter uma ideia da relevância do tema: estima-se que 10 a 20% da população adulta mundial apresenta níveis elevados de ácido úrico, e essa prevalência cresce com a idade, o sedentarismo e a má alimentação típica do estilo de vida moderno.
2. Hiperuricemia — O que Significa?
Define-se hiperuricemia como a concentração sérica de ácido úrico acima de 6,8 mg/dL (aproximadamente 400 µmol/L). Esse valor não é arbitrário: acima desse limiar, o sangue torna-se saturado e os cristais de urato monossódico começam a precipitar nos tecidos, especialmente nas articulações, nos rins e no tecido subcutâneo.
É importante destacar que nem toda pessoa com hiperuricemia desenvolverá gota. Muitos indivíduos permanecem assintomáticos por anos ou mesmo por toda a vida. No entanto, o risco é diretamente proporcional ao nível sérico:
- Ácido úrico entre 7,0 e 8,0 mg/dL → risco de gota em ~5 anos é de aproximadamente 3%
- Ácido úrico entre 9,0 e 10,0 mg/dL → risco salta para 22%
- Acima de 10,0 mg/dL → risco superior a 50% em 5 anos
Além da gota, a hiperuricemia crônica está associada a doença renal crônica, nefrolitíase (cálculos renais de ácido úrico), hipertensão arterial, síndrome metabólica e aumento do risco cardiovascular. Portanto, trata-se de um marcador que merece atenção, mesmo na ausência de sintomas articulares.
3. Sintomas — Da Crise de Gota às Complicações Sistêmicas
3.1. A Crise Aguda de Gota
A manifestação clássica e mais conhecida da hiperuricemia é a crise aguda de gota, uma das dores mais intensas que um ser humano pode experimentar. Frequentemente descrita pelos pacientes como "uma facada" ou "um cão mordendo a articulação", a crise de gota tem características muito típicas:
- Início súbito — geralmente à noite ou nas primeiras horas da madrugada
- Dor excruciante — a articulação fica extremamente sensível, a ponto de o simples toque do lençol provocar dor
- Rubor e calor — a pele sobre a articulação fica avermelhada e quente
- Edema intenso — inchaço significativo da articulação
- Limitação funcional — o paciente não consegue movimentar a articulação afetada
A articulação mais frequentemente acometida é a primeira articulação metatarsofalangiana (o "joanete" do dedão do pé), em cerca de 50 a 70% dos casos — daí o nome clássico podagra. Outros locais comuns incluem o tornozelo, o joelho, o punho, o cotovelo e as articulações das mãos.
A crise dura tipicamente 3 a 14 dias sem tratamento, e resolve-se espontaneamente na maioria dos casos. Contudo, a cada nova crise, o intervalo entre os episódios tende a diminuir, e a doença pode evoluir para formas mais graves.
3.2. Gota Tofácea Crônica
Quando a hiperuricemia não é tratada adequadamente por anos, os cristais de urato podem se acumular formando tofos — depósitos sólidos de urato monossódico envoltos por uma reação inflamatória granulomatosa. Esses tofos podem surgir em:
- Articulações (causando deformidades e erosões ósseas)
- Tendões e ligamentos
- Cartilagem da orelha (os famosos "nódulos na orelha")
- Bolsa olecraniana (cotovelo)
- Pontas dos dedos
A gota tofácea é uma forma grave e incapacitante da doença, associada a deformidades irreversíveis, perda de função articular e impacto significativo na qualidade de vida.
3.3. Nefrolitíase (Cálculos Renais)
O ácido úrico elevado na urina (hiperuricosúria) pode precipitar nos rins, formando cálculos de ácido úrico, que correspondem a cerca de 10% de todos os tipos de pedra nos rins. Os sintomas incluem:
- Dor lombar intensa e súbita (cólica renal)
- Dor irradiada para o abdome e região inguinal
- Hematúria (sangue na urina)
- Náuseas e vômitos
- Urgência e desconforto ao urinar
4. Fatores de Risco — Por Que o Ácido Úrico Sobe?
A hiperuricemia é quase sempre multifatorial. Identificar os fatores envolvidos é essencial para um tratamento eficaz.
4.1. Fatores Dietéticos (os mais modificáveis)
- Carnes vermelhas e vísceras — fígado, coração, rim, moela são extremamente ricos em purinas
- Frutos do mar — camarão, caranguejo, lagosta, mexilhões, sardinha, anchova, arenque
- Álcool — especialmente a cerveja, que combina etanol com alto teor de purinas; o destilado também aumenta o ácido úrico, mas em menor grau
- Refrigerantes e bebidas adoçadas — a frutose industrial (xarope de milho rico em frutose) acelera a degradação de ATP, gerando purinas e elevando o ácido úrico
- Alimentos ultraprocessados — ricos em gordura, sódio e frutose, contribuem indiretamente
4.2. Fatores Genéticos e Metabólicos
- História familiar — filhos de pais com gota têm 2 a 3 vezes mais risco de desenvolver a doença
- Obesidade — o tecido adiposo em excesso aumenta a produção de ácido úrico e reduz sua excreção renal
- Síndrome metabólica — a resistência à insulina está fortemente associada à hiperuricemia
- Insuficiência renal — a redução da filtração glomerular diminui a excreção de ácido úrico
- Hipertensão arterial — relação bidirecional: a hipertensão reduz a excreção renal de urato, e a hiperuricemia contribui para a gênese da hipertensão
4.3. Medicamentos
- Diuréticos tiazídicos (hidroclorotiazida, clortalidona) — reduzem a excreção renal de ácido úrico
- Diuréticos de alça (furosemida)
- Aspirina em baixas doses (<2 g/dia)
- Ciclosporina e outros imunossupressores
- Quimioterápicos — pela lise tumoral e liberação maciça de purinas
5. Diagnóstico
O diagnóstico da hiperuricemia e da gota baseia-se em três pilares:
5.1. Dosagem Sérica de Ácido Úrico
Exame de sangue simples, de rotina. Valores de referência típicos:
- Homens: 3,4 — 7,0 mg/dL
- Mulheres: 2,4 — 6,0 mg/dL
- Hiperuricemia: >6,8 mg/dL (ambos os sexos)
Atenção: durante uma crise aguda de gota, o ácido úrico sérico pode estar normal em até 30% dos casos. Isso ocorre porque a inflamação aguda pode desencadear excreção renal acelerada. Portanto, um valor normal durante a crise não exclui gota.
5.2. O Padrão-Ouro: Aspiração Articular
A confirmação definitiva da gota é a demonstração de cristais de urato monossódico no líquido sinovial obtido por artrocentese (punção da articulação). Os cristais têm forma de agulha e são negativamente birrefringentes à luz polarizada. É o exame que diferencia a gota de outras artrites (como a pseudogota, causada por cristais de pirofosfato de cálcio).
5.3. Exames de Imagem
- Ultrassom musculoesquelético — pode identificar o "sinal do duplo contorno" (depósito de urato na superfície da cartilagem articular) e tofos não palpáveis
- Radiografia simples — útil em fases avançadas para visualizar erosões ósseas com "saliência" (características da gota tofácea)
- Tomografia computadorizada de dupla energia (DECT) — técnica avançada capaz de mapear depósitos de urato com alta precisão
6. Tratamento da Crise Aguda
O tratamento da crise aguda deve ser iniciado o mais rápido possível — idealmente nas primeiras 24 horas — para abreviar a duração e a intensidade dos sintomas.
6.1. Colchicina
Medicamento clássico e muito eficaz quando usado precocemente. Seu mecanismo de ação é a inibição da polimerização da tubulina, reduzindo a migração de neutrófilos para o local da inflamação.
- Esquema atual recomendado (baixa dose): 1 mg (dois comprimidos de 0,5 mg) na primeira hora, seguido de 0,5 mg uma hora depois (total = 1,5 mg no primeiro dia). Não repetir antes de 12 horas.
- Efeitos colaterais: diarreia, náuseas, vômitos, dor abdominal. Em overdose, pode ser tóxica (depressão medular, neuropatia). Contraindicada em insuficiência renal grave (TFG <30 mL/min).
6.2. Anti-inflamatórios Não Esteroides (AINEs)
São a primeira linha para a maioria dos pacientes sem contraindicações. Os mais utilizados:
- Naproxeno: 500 mg 2x/dia
- Ibuprofeno: 600-800 mg 3x/dia
- Indometacina: 50 mg 3x/dia (muito eficaz, porém maior risco gastrointestinal)
- Diclofenaco: 50 mg 3x/dia
Contraindicações: úlcera péptica ativa, insuficiência renal, insuficiência cardíaca, uso de anticoagulantes, história de alergia a AINEs.
6.3. Corticosteroides
Excelente alternativa quando AINEs e colchicina são contraindicados ou ineficazes:
- Prednisona: 30-40 mg/dia por 3-5 dias, com redução gradual
- Metilprednisolona (pulsoterapia): para casos graves ou poliarticulares
- Injeção intra-articular de corticosteroide: opção elegante quando apenas uma articulação está acometida (ex.: joelho), com efeito rápido e mínimo sistêmico
6.4. Medidas Gerais
- Repouso da articulação afetada
- Crioterapia (gelo local) por 15-20 minutos a cada 2-3 horas
- Hidratação abundante (2-3 litros de água/dia)
- Não iniciar alopurinol ou febuxostat durante a crise aguda — pode prolongar e piorar a crise. Se o paciente já usa, não suspender.
7. Tratamento Crônico — Reduzindo o Ácido Úrico a Longo Prazo
O tratamento hipouricemiante de longo prazo é indicado para pacientes que apresentam:
- Duas ou mais crises de gota por ano
- Gota tofácea (tofos visíveis ou palpáveis)
- Lesão renal atribuível à hiperuricemia
- Nefrolitíase por ácido úrico
- Hiperuricemia grave (>10-11 mg/dL) mesmo assintomática, com alto risco cardiovascular ou renal
7.1. Alopurinol — O Medicamento de Primeira Linha
O alopurinol é o fármaco mais prescrito no mundo para redução do ácido úrico. Atua inibindo a xantina oxidase, enzima responsável pela conversão de hipoxantina em xantina e de xantina em ácido úrico.
- Dose inicial: 100 mg/dia (para reduzir risco de crise induzida pelo início do tratamento)
- Ajuste progressivo: aumentar 100 mg a cada 2-4 semanas até atingir a meta de ácido úrico <6,0 mg/dL (ou <5,0 mg/dL em gota tofácea)
- Dose usual: 300 mg/dia; pode chegar a 600-800 mg/dia em casos refratários (com monitorização)
- Ajuste na insuficiência renal: iniciar com 50 mg/dia e titular lentamente se TFG <30 mL/min
- Efeitos colaterais: rash cutâneo (2%), hipersensibilidade (síndrome de Stevens-Johnson — rara mas grave, mais frequente em portadores do HLA-B*5801 — testar em asiáticos e afrodescendentes)
7.2. Febuxostat — Alternativa ao Alopurinol
Também inibidor da xantina oxidase, porém de ação mais seletiva. Vantagens:
- Não requer ajuste na insuficiência renal leve a moderada
- Pode ser usado em pacientes alérgicos ao alopurinol
- Dose: 40-80 mg/dia (iniciar com 40 mg, titular em 2 semanas se necessário)
Contraindicação: pacientes com doença cardiovascular prévia (estudo CARES mostrou aumento de mortalidade cardiovascular — embora controverso, a contraindicação mantém-se em diversas diretrizes).
7.3. Outras Opções
- Benzbromarona: uricosúrico (aumenta excreção renal de ácido úrico). Pouco disponível no Brasil. Contraindicado se TFG <30 mL/min ou nefrolitíase.
- Pegloticase: uricase recombinante, uso intravenoso. Reservada para gota tofácea refratária grave. Alto custo e risco de reações alérgicas.
7.4. Profilaxia de Crise Durante Início do Tratamento
Ao iniciar qualquer hipouricemiante, há um risco aumentado de crise nos primeiros 3-6 meses. Por isso, recomenda-se profilaxia concomitante com:
- Colchicina 0,5 mg 1x/dia, ou
- Naproxeno 250 mg 2x/dia, ou
- Prednisona 5-10 mg/dia (casos selecionados)
A profilaxia deve ser mantida por 3 a 6 meses após atingir a meta terapêutica.
8. Dieta e Estilo de Vida — O que Comer e o que Evitar
A terapia nutricional é parte fundamental do manejo da hiperuricemia. Embora a dieta isoladamente raramente normalize o ácido úrico (redução típica de 1,0-1,5 mg/dL), ela potencializa o efeito dos medicamentos e reduz o risco de crises.
8.1. Alimentos Ricos em Purinas — EVITAR ou LIMITAR
| Categoria | Alimento | Teor de Purinas | Recomendação |
|---|---|---|---|
| Muito alto | Vísceras (fígado, rim, coração, moela) | 300-600 mg/100g | Evitar completamente |
| Sardinha, anchova, arenque | 300-500 mg/100g | Evitar completamente | |
| Mexilhões, vieiras | 250-400 mg/100g | Evitar completamente | |
| Extrato de carne, caldos concentrados | 200-400 mg/100g | Evitar completamente | |
| Alto | Carnes vermelhas (bovina, suína, cordeiro) | 100-200 mg/100g | Moderar (2-3x/semana) |
| Frutos do mar (camarão, caranguejo, lagosta) | 100-200 mg/100g | Moderar (1-2x/semana) | |
| Cerveja (inclusive sem álcool) | 50-100 mg/100ml | Evitar (ou limitar a 1 lata/dia) | |
| Moderado | Aves (frango, peru, pato) | 50-100 mg/100g | Consumo moderado (3-4x/semana) |
| Feijão, lentilha, grão-de-bico | 50-100 mg/100g | Permitido em porções moderadas | |
| Baixo | Leite e derivados | <50 mg/100g | Liberado — preferir desnatados |
| Ovos | <50 mg/100g | Liberado (2-3 unidades/dia) | |
| Arroz, massas, batata, mandioca | <50 mg/100g | Liberado |
8.2. Alimentos que AJUDAM a Reduzir o Ácido Úrico
- Cereja (e derivados): estudos mostram redução de 35-45% no risco de crises agudas com consumo regular de cerejas (cerca de 20 unidades/dia ou suco concentrado). Ricas em antocianinas, que inibem a inflamação e a produção de ácido úrico.
- Café: o consumo regular (3-4 xícaras/dia) associa-se a menor risco de gota, possivelmente pela ação da cafeína como inibidor da xantina oxidase e pelo aumento da excreção renal.
- Vitamina C (ácido ascórbico): 500 mg/dia pode reduzir o ácido úrico sérico em 0,5-1,0 mg/dL, por aumentar a excreção renal. Doses maiores (1000-2000 mg/dia) têm efeito mais pronunciado.
- Água: hidratação abundante (2-3 litros/dia) dilui a urina e reduz o risco de cristalização e nefrolitíase.
- Laticínios desnatados: o consumo regular de leite e iogurte desnatados associa-se a menor risco de gota, possivelmente por efeito uricosúrico das proteínas do soro do leite.
8.3. O que NÃO é Precisa Evitar (Mitos)
- Tomate, espinafre, couve-flor, brócolis: apesar de conterem purinas, o teor é baixo e estudos não mostraram associação com risco aumentado de gota.
- Cogumelos: idem — o purina de origem vegetal tem menor impacto no ácido úrico sérico.
- Chocolate: purinas em quantidades insignificantes. Pode ser consumido com moderação.
8.4. Resumo para o Dia a Dia
- Carne vermelha: máximo 2-3 porções de 100g por semana
- Frango/peru: máximo 3-4 porções por semana
- Peixes: preferir peixes magros (tilápia, pescada, merluza) com moderação
- Evitar completamente: vísceras, sardinha, anchova, cerveja, refrigerantes
- Café: liberado e benéfico (sem açúcar)
- Cerejas: 15-20 unidades ao dia na safra, ou suco concentrado fora dela
- Vitamina C: suplementação de 500 mg/dia (consultar médico antes)
- Água: mínimo 2 litros/dia
- Perda de peso: cada 5 kg reduzidos diminuem o ácido úrico em cerca de 0,5 mg/dL
9. Check-up 40+ — Por Que o Ácido Úrico Deve Estar na Sua Rotina
Muitos pacientes me perguntam: "Doutor, eu preciso pedir ácido úrico no meu check-up?"
Minha resposta é sempre a mesma: sim. A dosagem de ácido úrico deve fazer parte do check-up básico de todo paciente a partir dos 40 anos, especialmente se houver fatores de risco como obesidade, hipertensão, diabetes, história familiar de gota ou doença renal.
O grande problema é que a hiperuricemia é silenciosa. Ela não dói, não incomoda, não atrapalha o dia a dia — até o dia em que uma crise de gota acorda o paciente às 3h da manhã com uma dor que ele jamais imaginou ser possível. Ou, pior ainda, até que depósitos irreversíveis já tenham se formado nas articulações ou nos rins.
Diagnosticar a hiperuricemia precocemente permite uma intervenção simples e eficaz: ajuste na dieta, mudança de estilo de vida e, quando indicado, medicamentos seguros como o alopurinol. Tudo isso para evitar a progressão para gota crônica, doença renal e complicações cardiovasculares.
Meu conselho: se você tem mais de 40 anos e não lembra da última vez que dosou seu ácido úrico, inclua esse exame no seu próximo check-up. São algumas horas de jejum, uma picadinha no braço, e um resultado que pode literalmente prevenir anos de sofrimento articular.
Nota do Autor
Este artigo tem caráter informativo e educacional. Não substitui a consulta médica presencial. O tratamento da hiperuricemia e da gota deve ser individualizado, levando em conta o perfil clínico de cada paciente, comorbidades e medicações em uso. Consulte sempre seu médico de família ou reumatologista para orientação personalizada.
Dr. Marcos Maranhão — Médico de Família | CRM-SP 132.965