🩺 Dr. Marcos Maranhão · CRM-SP 132.965-SP

Refluxo Gástrico: Sintomas, Diagnóstico e Tratamento

📅 Julho/2026 · 🏥 Campinas

Dr. Marcos Maranhão, médico de família (CRM-SP 132.965-SP).

Refluxo Gástrico: Sintomas, Diagnóstico e Tratamento

Por Dr. Marcos Maranhão — CRM-SP 132.965

1. O que é a Doença do Refluxo Gastroesofágico?

A Doença do Refluxo Gastroesofágico (DRGE) é uma condição crônica que afeta entre 12% e 20% da população brasileira, segundo dados da Federação Brasileira de Gastroenterologia. Apesar de ser amplamente conhecida como "azia", a DRGE vai muito além dessa sensação incômoda. Trata-se de um distúrbio no qual o conteúdo do estômago — ácido clorídrico, pepsina, bile — retorna de forma anormal ao esôfago, causando inflamação da mucosa esofágica e uma série de sintomas que podem comprometer seriamente a qualidade de vida.

O problema é que muitas pessoas convivem com os sintomas por meses ou anos sem buscar ajuda médica, normalizando o desconforto. Outras, porém, confundem a DRGE com problemas cardíacos — a dor no peito do refluxo pode mimetizar um infarto. Por isso, conhecer os sinais e saber quando procurar um médico é fundamental.

2. Sintomas Típicos

Os sintomas clássicos da DRGE são tão característicos que, na maioria dos casos, o diagnóstico pode ser suspeitado apenas pela história clínica:

Esses sintomas tipicamente pioram com refeições volumosas, alimentos gordurosos, bebidas alcoólicas, café e ao deitar-se logo após comer. A intensidade pode variar de leve a incapacitante, e sua frequência é um bom indicador da gravidade da doença.

3. Sintomas Atípicos (Extra-Esofágicos)

Este é um dos pontos mais importantes e menos conhecidos da DRGE: o refluxo nem sempre causa queimação. Muitos pacientes chegam ao consultório com sintomas que, à primeira vista, parecem não ter relação com o estômago. São os chamados sintomas extra-esofágicos ou atípicos:

Por que esses sintomas são tão importantes? Porque muitas vezes o paciente é tratado para asma, sinusite ou ansiedade sem nenhuma melhora, quando o problema real está no estômago. Um olhar clínico atento pode evitar anos de tratamentos inadequados.

4. Causas

A DRGE tem uma fisiopatologia multifatorial. As principais causas e fatores de risco incluem:

5. Diagnóstico

O diagnóstico da DRGE pode ser feito por diferentes estratégias, dependendo da apresentação clínica e da gravidade dos sintomas:

Teste Terapêutico (Resposta ao Inibidor de Bomba de Prótons - IBP)

Na prática clínica diária, esta é a abordagem mais comum. Pacientes com sintomas típicos (pirose + regurgitação) recebem uma prescrição de IBP em dose padrão por 4 a 8 semanas. Se houver melhora significativa, confirma-se o diagnóstico de DRGE. É um método simples, não invasivo e de baixo custo.

Endoscopia Digestiva Alta (EDA)

Indicada quando o teste terapêutico falha, quando há sintomas de alarme (disfagia, perda de peso, anemia, sangramento) ou para rastreamento de complicações em pacientes de longo prazo. A EDA permite visualizar diretamente a mucosa esofágica e classificar a esofagite (classificação de Los Angeles, graus A a D). Além disso, permite a biópsia para pesquisa de metaplasia intestinal (Esôfago de Barrett).

pHmetria Esofágica de 24 Horas

Considerada o padrão-ouro para o diagnóstico. Um cateter fino é introduzido pelo nariz até o esôfago e permanece por 24 horas, medindo o pH em tempo real. O paciente registra seus sintomas e refeições em um diário. O exame quantifica o número de episódios de refluxo, sua duração e a correlação com os sintomas. Existe também a pHmetria sem fio (cápsula Bravo), que é colocada endoscopicamente e oferece maior conforto com menor tempo de monitoramento (48-96 horas).

Manometria Esofágica

Mede a pressão e a coordenação das contrações do esôfago e do EEI. Não diagnostica diretamente o refluxo, mas é essencial para avaliar a função motora do esôfago antes de uma possível cirurgia antirrefluxo e para posicionar corretamente o cateter de pHmetria. Também afasta distúrbios como acalasia, que podem mimetizar a DRGE.

6. Tabela Comparativa dos Métodos Diagnósticos

Método Sensibilidade Invasivo? Indicação Principal Custo Relativo
Teste Terapêutico (IBP) Moderada (70-80%) Não Suspeita clínica em pacientes com sintomas típicos Baixo
Endoscopia Digestiva Alta Moderada (apenas 50% dos pacientes com DRGE têm esofagite visível) Sim Sintomas de alarme, suspeita de complicações, falha terapêutica Médio
pHmetria de 24 horas Alta (>90%) Sim (cateter ou cápsula) Padrão-ouro; DRGE atípica, refratária, ou pré-operatória Alto
Manometria Esofágica Não diagnostica refluxo diretamente Sim (cateter) Avaliação pré-operatória, posicionamento de pHmetria Médio
ImpedanciopHmetria Muito Alta (>95%) Sim (cateter) Detecta refluxo não-ácido; útil em pacientes refratários ao IBP Alto
Tabela 1. Comparação dos principais métodos diagnósticos para DRGE.

7. Tratamento Clínico

O tratamento da DRGE é dividido em três pilares: medicamentos, mudanças de estilo de vida e, em casos selecionados, cirurgia. Comecemos pelos medicamentos.

Inibidores de Bomba de Prótons (IBP)

São a base do tratamento. Atuam bloqueando a enzima H⁺/K⁺-ATPase nas células parietais do estômago, reduzindo drasticamente a produção de ácido. Os principais são:

Importante: O uso crônico de IBP não é isento de riscos. Estudos associam o uso prolongado (acima de 1 ano) a maior risco de deficiência de vitamina B₁₂, fraturas osteoporóticas, infecção por Clostridium difficile e nefrite intersticial. Por isso, a dose deve ser a mínima eficaz e o tratamento deve ser periodicamente reavaliado.

Procinéticos

Aceleram o esvaziamento gástrico e aumentam a pressão do EEI. A domperidona (10mg, 3x ao dia) é a mais usada no Brasil. Seu uso é adjuvante — nunca como monoterapia. Precaução: pode prolongar o intervalo QT, especialmente em doses elevadas e em pacientes cardíacos.

Antiácidos e Alginatos

Funcionam como "primeiros socorros" para crises de azia. Hidróxido de alumínio e magnésio neutralizam rapidamente o ácido, mas têm efeito curto (30-60 minutos). Os alginatos formam uma barreira física na superfície do conteúdo gástrico, prevenindo o refluxo. São seguros na gravidez.

8. Mudanças de Estilo de Vida

Nenhum tratamento medicamentoso será eficaz a longo prazo sem a correção dos hábitos que favorecem o refluxo. Essas medidas são tão importantes quanto o medicamento:

9. Alimentos Gatilho

Alguns alimentos são conhecidos por relaxar o EEI ou aumentar a produção de ácido. A identificação e evitação dos gatilhos individuais é parte essencial do manejo:

Dica prática: Mantenha um diário alimentar por 2 semanas, anotando o que comeu e quando teve sintomas. Isso revela seus gatilhos pessoais, já que a tolerância varia muito de pessoa para pessoa.

10. Cirurgia: Fundoplicatura de Nissen

Quando o tratamento clínico é insuficiente ou o paciente não deseja usar medicamentos por toda a vida, a cirurgia antirrefluxo é uma opção. A técnica padrão é a fundoplicatura de Nissen (atualmente realizada por videolaparoscopia, minimamente invasiva).

Como funciona: a porção superior do estômago (fundo gástrico) é envolvida em torno da porção distal do esôfago, como uma "manga", criando uma válvula antirrefluxo que restaura a competência do EEI.

Indicações para cirurgia:

A cirurgia tem sucesso de 85-95% no alívio dos sintomas em 5 anos. Porém, não é isenta de complicações (disfagia transitória, distensão abdominal por gases, diarreia, falha da válvula com necessidade de reoperação). A avaliação pré-operatória deve obrigatoriamente incluir manometria esofágica e pHmetria para confirmar o diagnóstico e excluir distúrbios motores.

11. Complicações do Refluxo Crônico Não Tratado

Ignorar a DRGE por anos pode levar a consequências graves. As principais complicações são:

Esôfago de Barrett

Condição na qual o epitélio escamoso normal do esôfago é substituído por epitélio colunar metaplásico (semelhante ao do intestino), em resposta à lesão crônica pelo ácido. O grande perigo: o Esôfago de Barrett é a principal lesão precursora do adenocarcinoma de esôfago, um dos cânceres com maior taxa de mortalidade. Acomete cerca de 5-15% dos pacientes com DRGE crônica, especialmente homens brancos, acima de 50 anos, com obesidade e história de tabagismo. O diagnóstico é feito por endoscopia com biópsia. O manejo inclui vigilância endoscópica periódica (a cada 3-5 anos, ou 1 ano se displasia de baixo grau) e tratamento otimizado do refluxo.

Estenose Esofágica

Definida pelo estreitamento da luz do esôfago devido à inflamação crônica e fibrose. Os pacientes queixam-se de disfagia progressiva (dificuldade para engolir), primeiro para sólidos e depois para líquidos. O tratamento é endoscópico (dilatação com balão ou bougie), associado ao controle rigoroso do refluxo com IBP.

Esofagite Erosiva

Inflamação com erosões e ulcerações da mucosa esofágica. Pode causar dor intensa, sangramento (anemia ferropriva) e, em casos raros, hemorragia digestiva alta.

Pneumonia Aspirativa e Fibrose Pulmonar

O refluxo pode ascender até a via aérea, causando pneumonias de repetição e, em longo prazo, fibrose pulmonar. É uma complicação subdiagnosticada.

12. A Conexão com o Check-up 40+

Se você tem mais de 40 anos e sofre de refluxo crônico — mesmo que "só" uma azia ocasional —, um check-up completo pode fazer toda a diferença. A endoscopia digestiva alta faz parte da avaliação recomendada a partir dessa idade, especialmente para quem apresenta sintomas persistentes.

Em um check-up 40+, avaliamos não apenas o estômago e o esôfago, mas também os fatores de risco metabólicos (obesidade, diabetes, hipertensão) que agravam o refluxo. A abordagem integrada permite:

Lembre-se: refluxo não tratado adequadamente não é apenas desconfortável — é um fator de risco para doenças graves. Se você tem azia frequente (mais de 2 vezes por semana), regurgitação, tosse crônica inexplicada ou rouquidão persistente, marque uma consulta. A DRGE tem tratamento, e as complicações podem ser evitadas.


Dr. Marcos Maranhão
Médico de Família e Comunidade | CRM-SP 132.965
Este conteúdo tem caráter informativo e não substitui a consulta médica presencial.